– Filho, vá dar comida para o seu bichinho, está bem? – disse Tarlí, com seus olhos voltados para o horizonte. Após as árvores da floresta, ficava uma grande montanha, com um pico muito elevado, e outro que quase se escondia no verde das folhas. Atrás dela, ficava a cidade onde o lenhador nasceu e cresceu.
– Sim, papai. Hanrí, almoço! – Forlí foi até a janela de seu quarto, onde estava pendurada uma gaiola. Passou a cuidar do karikat.
Bastou um dia para que Tarlí e Bohen voltassem a ser os amigos que eram anos atrás. Estavam sentados na varanda, jogando conversa fora, e pensando na vida. No que restava dela.
– Ei, sabe o que eu estava pensando? – perguntou Bohen, olhando para o amigo, com as sobrancelhas franzidas – Nós fomos obrigados a aprender a língua dos astrais. Mas eles não falam a nossa, exceto os professores de linguagem.
– Agora que falou, percebo isso também. Eles nunca se dão ao trabalho de aprender a se comunicar conosco para dar ordens. Nós é que temos que nos virar para recebê-las.
– Tenho certeza que nos outros países, foi igual. Quero dizer, não só a parte de aprendermos o idioma deles à força, mas em todo o processo de ocupação. Da invasão e destruição do governo e exército, passando pela prisão domiciliar, e depois o trabalho escravo em minas de qualquer que seja o material encontrado no local.
– Recursos minerais são escassos e finitos. – disse Tarlí – Não, eles não viriam de tão longe só para extrair ouro e diamantes. Deve haver muito mais do que isso. Os astrais devem saber mais sobre nosso planeta do que nós mesmos.
– Imagino que nos países litorâneos, tenha-se mantido a produção de petróleo, onde ele é abundante. Deve ter muito mais no fundo do mar, que deve estar em extração também.
– Zarpar um navio pra pegar esse óleo negro no meio do oceano, se ele é facilmente encontrado em terra firme? Pense bem, ele nem vale tanto.
– Relembre os velhos tempos por um segundo, Tarlí. Haviam sido descobertos vários usos para o petróleo como matéria prima. O plástico é incrível, a gasolina é um ótimo combustível, os solventes são magníficos. Petróleo é o futuro. Será mais um variante da economia.
– Entendo que o petróleo pode vir a ser algo bom. Mas, que economia? Bohen, os governos acabaram. Nunca voltaremos a ter economia ou autonomia.
– Inspire-se um pouco, poxa! Eu já te disse que a estadia dos astrais aqui é passageira, não vai demorar muito. Esse planeta é nosso, e nada vai mudar isso. Eu vi alguns de perto, e acredite, são de carne e osso, como eu e você.
– Sua esperança me contagia. Bohen, você sempre foi do tipo sonhador.
– Exato! E mesmo assim, não virei coletivista, seu louco!
– Usa essa conversa para tudo agora. Já te disse, vamos esquecer essas coisas de política.
– Teremos que discutir muito esse assunto quando os astrais forem embora. E discutiremos sobre a vida dos outros, sobre o último livro lançado daquele autor famoso, e o que ouvimos no rádio, ou algum problema de saúde, quem sabe contaremos histórias de bebedeiras – Bohen deu um pesado suspiro, e voltou a falar – Sinto saudade dessa época. De morar na cidade, com os demais. E eu achava tudo tão ruim. Não me dava conta do que tinha; Tarlí.
– Eu te entendo. Também me sinto assim às vezes. Agora que estamos aqui, só nos resta sobreviver.
– Agora que estamos aqui, vamos viver. Quantas vezes terei que falar para não desistir da sua vida?
– Mais vezes do que você conseguirá; meu amigo. Já desisti há muito tempo. O único motivo de ainda me manter em pé é o meu filho. Forlí é tudo para mim.
Olhando para o horizonte, Tarlí percebeu o exato momento em que uma luz fortíssima vazou por entre as copas das árvores a dois quilômetros de distância, cegando os dois.
– São astrais! – gritou Bohen, levando a mão ao rosto.
– Eles estão vindo para cá? – perguntou Tarlí, preparando sua espingarda.
Raios de luz de uma lanterna astral causam uma cegueira momentânea em um racional, já que elas brilham mais que Liana. Era perigoso olhar na direção delas, então Bohen virou o rosto, e disse:
– Acha mesmo que vou conferir? Ainda quero ver o mundo! Entre! Pegue o Forlí, e vamos nos esconder! Rápido!
Sem pestanejar, Tarlí correu pela cabana, até o quarto do filho, e o pegou no colo. Para seus olhinhos alaranjados, e um sentido de urgência cresceu dentro de si. Uma força que dizia em sua cabeça que algo precisava ser feito. Precisava proteger Forlí. Custasse o quê custasse, ninguém faria mal à sua criança.
– Ei, papai, e o Hanrí? Ele ta ali, na gaiola. Pega ele, papai. – Tarlí ignorou o pedido do filho, e correu com o menino nos braços. O pássaro não podia atrapalhar que se escondessem.
Rapidamente, os três racionais estavam correndo no descampado, coberto de neve. Mas, algo se mexeu nas árvores à sua frente, então voltaram e meteram-se em um buraco ao lado da cabana. Bohen e Tarlí checaram suas armas.
As árvores se mexeram com força para dar passagem ao ser, que passou a andar sobre o descampado. Não podiam vê-lo, ou não queriam levantar as cabeças para fazer isso; mas era possível escutar seus passos sobre a neve. Pareciam as batidas de um martelo. Lentamente, o som ia se aproximando.
Seus passos eram uma prova de que era grande. Mas quando chegou à janela da cabana, era possível escutar sua respiração. Longa, lenta e abafada. Inspirava pesarosamente, produzindo um som estridente, e expirava com muita força, num ruído grave como um rugido. Logo, começou a dar pancadas na janela de Tarlí, que soavam como uma grande bola de ferro atingindo uma superfície. O estrondo fez com que Hanrí grasnasse repetidamente, desesperado para fugir.
Os passos, vagarosamente, ecoaram duros e ásperos, em direção ao grasnar do karikat. Quando pararam, ouviram-se três grasnos fortes e secos, e então um estralo. Seguiram-se seis segundos de puro silêncio, e logo veio o barulho parecido com o de uma pesada lona arrastando em madeira, seguido de um feroz estrondo vindo de dentro do quarto de Forlí.
– Tarlí, precisamos ir até lá – sussurrou Bohen. Sua respiração estava acelerada, e todo o seu corpo estremecia – Se for uma equipe de caçadores, esse que está aqui achará nosso rastro.
Tarlí nada respondeu. Não conseguia falar. Não podia mover um músculo. Já havia esquecido como um astral é assustador. Não precisava vê-lo. Não queria vê-lo. Pensava em salvar o filho, mas mesmo assim não obtinha ação ou reação alguma de seu mísero e fajuto corpo de um racional. Bohen o segurou pela camisa.
– Forlí, fique abaixado aqui, e não se mexa por nada nesse mundo. Tarlí, segure firme sua espingarda.
Bohen se arrastou até a janela, puxando Tarlí consigo. Tanto o parapeito quanto a neve à sua frente estavam em vermelho vivo, encharcados pelo sangue que pingava da gaiola. Dentro dela, o karikat estava deitado, com as asas abertas, os olhos esbugalhados, o bico aberto, as penas coradas de rubro, e o pescoço partido, quase decapitado, ainda sangrando, fluindo corrente. Algumas penas estavam espalhadas, presas nas grades.
A cena chocou a ambos. Tarlí sentia a urgência de voltar rapidamente para o lado do filho, mas ainda não podia se mover. Ele nunca tinha enfrentado um astral. Da última vez, foi sua esposa que o fez. Não sabia o quê fazer, nem sequer o quê pensar. Até ouvir novamente os pesados passos maltratando o assoalho da cabana. Tentou correr imediatamente, mas foi segurado por Bohen.
Diferente de seu amigo, Bohen estava decidido a enfrentar seu perseguidor. Sim, ele estava igualmente apavorado, mas sabia que acovardar-se não melhoraria, sequer alteraria sua atual situação. Seu sentido de urgência o fazia agarrar-se à vida, tentar sobreviver.
De dentro da cabana, vinham os sons dos passos, da pesada respiração e de diversos móveis e objetos que se quebravam e se partiam devido a poderosas pancadas. Então veio um chiado de rádio, em que uma voz estranha era emitida, mas impossibilitada de ser entendida. O ser a respondeu, com uma voz pesada, grave e espessa, como a de um monstro. Era inaudível, irreconhecível, inverossímil, irreal, bestial.
A fera astral moveu-se de volta para o quarto de Forlí, como denunciavam seus passos. Tarlí entrou em estado de choque. Perdeu o controle sobre seu corpo, e foi ao chão, em uma manifestação de catatonia extrema. Bohen se abalou momentaneamente, porém respirou fundo, e se levantou na janela. Apoiou seus cotovelos no parapeito, firmou a espingarda nos braços, e disparou.
O disparo produziu um estrondo agudo e alongado, que ecoou para todos os lados do descampado e viajou bosque adentro. Logo após puxar o gatilho, Bohen teve seu rosto manchado por um grosseiro rastro de sangue. O ser astral nem sequer gritou.
Bohen então abriu um sorriso tão grande quanto seu próprio rosto, arregalou seus olhos e parou para sentir aquele sangue estranho ferver em sua testa, seu nariz e sua bochecha. Virou-se para Tarlí, que se contraia em espasmos de pânico, e disse:
– Seu fraco! Acalme-se agora! Você não deve temê-los, deve odiá-los. É bem como eu te disse, você viu? Eles são apenas seres vivos. Por trás de suas tecnologias, ainda são animais como qualquer outro. De carne e osso! Assim como nós.