O insustentável orgulho do ser

cosmos


Sou um grande opositor da ideia do ser humano como centro do universo, seja este pensamento no sentido figurado, filosófico ou, principalmente, no sentido mais literal possível. Também não sou defensor da ideia de outro qualquer tipo de ser como centro da universalidade, da totalidade. Acho que tais linhas de pensamento desconsideram a imensidão da própria totalidade para considerar coisas tão pequenas – ou mesmo profundamente humanas – como o centro da mesma.

Gostamos de enaltecer nossos feitos, de elogiar nossa genialidade ou mesmo de nos vangloriar das guerras que travamos e da tecnologia empregada. Parecemos estar num frenético e intenso sentimento de insegurança, onde nos imaginar menor do que realmente somos soa, no mínimo, aterrorizante. Criamos coisas para não nos sentirmos tão reféns dos nossos próprios medos. Criamos a crença no progresso, que deve vir a qualquer custo, assim como também manipulamos o império das coisas efêmeras que fazem parte do dia a dia dos seres humanos mais rasos que só conseguem enxergar significado na vida se tiverem os itens mais dispensáveis em suas casas.

Não somos grandes, não somos poderosos e nem somos especiais, mas gostamos de pensar assim, por isso criamos divindades, forças misteriosas e amigos imaginários para servir de consolo nos momentos difíceis.  Quando precisamos de um porto seguro, fiel e companheiro, mesmo que seja necessário inventar tal coisa, não hesitaremos em fazê-lo. Neles enxergamos o reflexo de todas as atitudes e imperfeições humanas, o reflexo de todo o desejo de ser amado e de fazer parte de algo maior, de algo que seja incompreensível e que transcenda a existência.  Que nos socorra do medo da morte; do medo de deixar de existir; do medo de nada ser.

Para os que chegaram até aqui, saibam que o niilismo aparente não é a saída e nem minha escolha. Seria um caminho muito fácil abandonar todos os sentidos e fechar as portas para os “por quês”. Busquemos deixar de lado todos esses objetivos acima citados. Objetivos superficiais que, ao contrário do que a maioria crê, não garantem importância ao ser humano, só o tornam mais superficial e fazem da nossa estadia nessa imensidão uma coisa descartável.

Olhe para si e não enxergue a solução para todos os problemas. Você não vai resolvê-los. Não procure a compreensão do universo, você não a terá, já que não temos tempo para isso, a não ser que compartilhe da ingênua crença de que existiremos para sempre.

Aproveite a sua imensa sorte que é existir e não se sinta especial para isso, pois isso não se chama predestinação, mas sim puro acaso.

Não procure criar uma espessa cortina de misticismo sobre aquilo que você não compreende, pois esse também é um caminho muito fácil. Simplesmente assuma que não compreende aquilo que acha que compreende.

Assuma que as coisas não giram ao seu redor e que a felicidade não anda de mãos dadas com o mito do progresso.

Negue a pureza e os valores hipócritas que compõem a vida em sociedade. Faça aquilo que tens vontade. Nada lhe trará mais felicidade e prazer do que isso.

Combata a existência de polaridades e assuma as contradições. As coisas não são puramente pretas ou brancas. Tudo é muito mais complexo do que aparenta ser.

Tornando-se mais uma célula do conformismo estabelecido, nunca sairá dos seus limites. Afundará na cova da indiferença e ficará cego com as viseiras impostas por si mesmo.

Questione todas as suas certezas e esteja disposto a destruí-las, caso ache necessário.

Ao assumir o não saber, é possível encontrar o saber. E o saber é lindo.

Rodrigo Barros

Sociólogo e às vezes filósofo de esquina; louco por teoria, livros e psicanálise. Escreve sobre política, sociedade, literatura e outras coisitas mais (ou não).
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