Por Rodrigo J. F. de Barros.
Estudava num colégio de pequeno porte, no bairro do “Janga” no Recife, e lá frequentei do chamado maternal até finalizar a alfabetização. A instituição se chamava “Colégio João Paulo II”; esse papa ainda era o papa na época. Pela tarde era o horário que haviam me matriculado e, talvez seja por isso, o meu trauma com o fato de ter de acordar cedo hoje em dia.
Não acordava antes das nove da manhã e até hoje acho um costume bastante cruel, esse que os não portadores de “corujismo” ficam impondo ao resto dos outros humanos. Minha mãe me buscava no colégio às 17h30min e de lá, quase que religiosamente, passávamos pela padaria próxima que agora possui um nome turvo na minha cachola que não se define, mas o rosto de uma das atendentes ainda me é claro. Ela me dava um pedaço de pão doce sem que os outros funcionários vissem, enquanto a mamãe pedia pão francês.
Logo em seguida, ficava desejando uma daquelas bolinhas de futebol; umas esferas de chocolate (que não eram de chocolate) com umas embalagens de papel alumínio pintadas como uma bola de futebol. Algumas coisas devem ficar estáveis no passado e jamais reescritas, principalmente no paladar, já que essas bolinhas tem um gosto horrível desde a última vez que voltei a comer uma delas.
Mas Cremutcho seria algo que eu gostaria bastante de ter em minha boca novamente. Era um tipo de requeijão que minha mãe levava toda semana da sessão de frios dessa mesma padaria, feito com lágrimas dos deuses, só podia. Bom o suficiente para comer não pão com cremutcho, mas sim cremutcho com pão. Tão bom, mas tão bom, que contraindicaram sua venda! Quando surgiu o medo da trans, das saturadas, do glúten, se descobriu que cremutcho tinha todos esses e provavelmente mais uns quatro que ainda estavam para ser descobertos.
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Não há horário mais produtivo que a madrugada, pois aqueles que são animais verdadeiramente vespertinos tornam a noite presente. Quando houver (se um dia houver) o devido reconhecimento para a profissão de vigia noturno, repensarei seriamente meus rumos profissionais.
O primeiro cascudo que levei, que na verdade não deve ter sido o primeiro que levei, mas com certeza foi o primeiro mais emblemático e que dói até hoje quando reconstruo o dia em que ele me foi carimbado no crânio, foi o que recebi quando disse cheio de entusiasmo que gostaria de ser um daqueles caras do caminhão de lixo. Podia existir algo mais emocionante aos meus olhos do que ver aquela adrenalina de correr pegando várias sacolas e tendo que jogá-las dentro daquele caminhão? Rodar a cidade inteira e saber o que as pessoas jogavam fora. Parecia algo promissor pra mim, mas não o foi por muito tempo. O galo subiu rápido e me foi berrado que eu deveria ser médico. Para a tristeza geral da família, virei sociólogo.
Sonhamos ser aquilo que nos é visível. Que criança comum sonharia em ser, por exemplo, um diplomata? Na televisão ela pode ver e ouvir alguém comentando: “Fulano é embaixador”, mas e aí? Não acho que seja interessante para uma criança saber que tal senhor na televisão é diplomata. É possível que surja alguma curiosidade, caso chegue aos seus ouvidos, que aquele senhor “viaja para todos os países do mundo”. Pequenininhos sonham com outras profissões; em serem professores, médicos, bombeiros ou policiais. Ninguém sonha em sem contador. Você já viu alguma criança brincando de ser contador? Visualize a cena: Agora vamos brincar de fazer seu imposto de renda!
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Se eu fosse vigia noturno poderia perder o emprego facilmente, somente por estar lendo alguma coisa ao invés de ficar de olho no movimento, com vários sujeitos querendo sair e outros mais querendo entrar. Que alegria seria (ou não), como diz uma amiga minha, ser pago para ler alguma coisa de qualidade: “Hoje você tem que ler tantos capítulos de do livro tal!”. Se não fosse muito bom, seria muito ruim. Todo desejo que se concretiza acaba por criar outro desejo logo em seguida. É assim que é a vida, é assim que é a falta.
Do mesmo jeito acabaria sendo se eu tivesse minha vendinha de caldo de cana, outro sonho empreendedor no auge dos meus oito anos. Pernambucano de berço, caldo de cana desce como água. Bebida santa que jorrava daquela maquininha, a mesma que triturava junto todos os besouros que eu não via e empurrava pra dentro sem a menor ideia. Sorte não ter passado nenhum barbeiro por entre as lâminas, meu coração não iria aguentar!
Lembro-me agora de um sujeito com quem me deparava todos os dias, exatamente quando saíamos da padaria ao final da tarde depois do colégio, já em direção ao nosso apartamento. Minha mãe e eu passávamos pela frente de um pequeno edifício, onde ele tinha um estabelecimento no térreo. O que fazia envolvia algum trabalho manual, disso tenho certeza. Tinha um sinal grande na bochecha direita e sempre segurava alguma ferramenta, como um martelo ou um cerrote. Não parecia velho, na verdade não parecia sequer ter trinta. Nunca soube seu nome ou qual era a sua profissão, mas sei que todo dia, quando o sol se preparava para deitar, ele acenava para nós dois. E sorria.
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