Capítulo 1 – Ode à Liberdade
– Pai, por que ele não vai embora? Ele é livre agora – disse Forlí, o menino. Tinha oito anos. Doce, inocente e adorável. Seus olhos alaranjados brilhavam forte em seu rosto rechonchudo de pele rosa; suas narinas eram bem abertas, como todos os outros racionais no mundo; suas orelhas eram côncavas e suaves; sua boca era pequena, e seus dentinhos, brancos feito a neve.
O pássaro jazia empoleirado em seu colo, imóvel. Uma bela ave de palmo e meio, que ostentava longas penas azul-marinhas em suas asas avantajadas, e estalava seu comprido bico negro. O menino a fitava com seus olhinhos espremidos de compaixão, inebriado pela atitude da criatura.
– Ele quer ficar comigo, papai? Ele me ama, não é? – Forlí apertou o pássaro em seus braços. O pai hesitou em responder.
– Não, meu filho. Ele só não entende. O pobre animal nunca irá para a mata – disse Tarlí, o lenhador. Tinha trinta e seis anos. Calmo, forte, confiante. Tinha os olhos laranja, com traços de amarelo; sua pele era rosa em um tom tão claro, que assemelhava o branco. Era grande, peludo e barbudo; seu nariz afastava os olhos, e as orelhas curvavam até quase fechar. Sua boca era larga, e os dentes, afiadíssimos.
– Como assim? – perguntou Forlí. As copas das gigantescas árvores à sua volta uivavam ante o vento do meio-dia, que batia gelado, como o segundo inverno do ano sempre era.
– O karikat não quer ser livre. Precisa de nós para viver. O bichinho não sabe caçar, nem procurar água e abrigo. Sua casa agora é conosco.
– Não! Sua casa é na floresta, livre! Igual os outros passarinhos, papai!
– Meu filho, sabe qual é a diferença entre nós, seres racionais, e os outros bichos de todo o planeta?
– Sim! Nós pensamos, e eles não. Eu vi isso no livro.
– Não, garoto. Nem tudo o que está nos livros é verdade. Os animais também pensam. O seu passarinho pensa que deve ficar conosco. Um Heysker pensa que deve proteger seu dono à qualquer custo. Um inseto pensa em se esconder de nós. Todo ser vivo pensa.
– Ahn? Então qual é a diferença?
– A diferença, é a noção de liberdade.
– Como assim? Eu estou libertando o passarinho.
– Mas ele é um bicho. Só entende o quê é casa.
– A casa dele é a floresta!
– Ele nasceu e cresceu vivendo conosco. A casa dele é a nossa. Um bicho que vive na floresta, quando é levado para uma cidade, tenta fugir direto, para o lugar que ele considera casa.
– Eu não estou entendendo…
– Prenda um karikat filhote em uma gaiola, e cuide dele. Ele não dará trabalho, e não irá embora, caso queira libertá-lo. Prenda um bebê em uma gaiola e cuide dele. Quando ele for um menino, do seu tamanho, já terá tentado fugir várias vezes. Vai dar muito trabalho.
Um bicho sempre procurará sua casa. Um racional sempre procurará ser livre, poder andar pelo mundo todo, sem que ninguém o impeça. É por isso que bichos presos viram animais de estimação e racionais presos viram escravos.
– Não tem como ensinar pra ele? Como viver na floresta?
– Quando havia sociedade, o controle de animais ensinava alguns bichos a viverem na floresta. Eles eram soltos, e conseguiam viver na mata. Mas não era a mesma coisa. Não era a sua casa. Não era, pois eles não sabem o que é…
-… Ser livre. Eu já entendi – o menino olhou para o karikat – Hanrí, me desculpe. Vou te levar para dentro, para casa.
O menino apanhou o pássaro na mão esquerda, e saiu andando, sendo seguido por seu pai. A mata era densa, mas não muito escura. Tarlí sabia que ali, não poderiam ser achados. Ali, os seres astrais não conseguiam ver, e suas lanternas podiam ser vistas à quilômetros de distância da cabana na pequena clareira, onde os dois entraram.
– Vou acender o fogo, pois está frio – disse Tarlí – Não quer ler um livro, para passar o tempo esta tarde?
– Não. Pai, a mamãe era livre?
Tarlí deu um longo suspiro e fechou seus olhos. Demorou-se um pouco, e falou:
– Não, ela não era. Nem eu. Mas nós lutamos pela sua liberdade. Ela morreu pra poder te dar isso. Seja grato. A liberdade é o bem mais importante do mundo.
– Mais do que ter a minha mamãe? Acho que o Hanrí é que está certo. É melhor ter sua casa, que sua liberdade.
Forlí sentou-se no chão e ficou acariciando o karikat. Sua tristeza podia ser sentida no ar. Tarlí acendeu a lareira da sala, e foi para o seu quarto. Ele tirou um anel de dentro do guarda-roupa, e sentou-se na cama. Passou a olhá-lo e chorar. Chorou muito, por um longo tempo.
Quando os seres astrais chegaram, foi uma surpresa para todos. Vieram em gigantescas máquinas voadoras, que flutuavam como um dirigível, mas eram todas feitas de ferro. Delas desceram gigantes de metal, com cinco metros de altura. Depois, carros enormes, feitos de um aço modificado, que deslizava sem rodas, e tinha canhões em seu topo.
Depois, vieram seres muito altos, todos com mais de um metro e meio. Vestiam grossos macacões brancos, com luvas, botas e uma grande mochila de mesma cor. Usavam enormes capacetes, com vidro grosso na sua frente. Seus rostos eram praticamente invisíveis. Só o que se via eram manchas brancas.
O exército saiu nas ruas, com suas armas prontas. Foram massacrados por balas que explodiam, dinamites de ferro e canhões que cuspiam projéteis em uma velocidade absurda. Logo, os seres astrais prenderam todo o povo dentro de suas casas por semanas. Depois, os fizeram sair das cidades, e trabalhar em grandes minas, que antes ali não estavam.
Trabalhando duro todo dia, sem descansar nunca, muitos começaram a planejar um meio de conseguir fugir, e ser livre outra vez. Várias revoltas aconteceram, seguidas sempre de grandes massacres. É sabido que para cada ser astral que morreu, cem racionais morreram também.
Em uma dessas revoltas, Tarlí e sua mulher aproveitaram para fugir com o pequeno Forlí. Eles queriam chegar até a Floresta Versaw, onde encontrariam uma cabana da família. Mas foram caçados.
Visando proteger Forlí, a mãe ficou para trás, para lutar com os astrais. Tarlí fugiu com a criança, alcançando a floresta, mas sua mulher morreu. Só o que ele sabe, é que ela matou três antes de partir, um feito incrível. Seus inimigos a enterraram em respeito a isso.
Tarlí não conseguia se perdoar por tê-la deixado. Mas este era o preço por sua liberdade. Pela liberdade de seu filho. Casa ou liberdade? No final das contas, ser livre era uma doçura amarga.
A noite havia chegado. Forlí foi para seu quarto, e gritou:
– Pai! Conta-me uma história para dormir?
– Estou indo.
O quarto era todo azul como o céu da manhã. Vários adesivos de carroças e seus heyferers enfeitavam as paredes.
– Quê quer que eu conte hoje?
– Qualquer uma.
– Está bem. Era uma vez, um menino xadrez. Entrou por uma porta, saiu pela outra, quem quiser que conte outra.
O menino sorriu, e rapidamente adormeceu em seu doce sonho de liberdade. O pai amargurado pegou sua espingarda, e montou vigia em frente à cabana. Os seres astrais podiam achá-los a qualquer momento. Seria horrível caso os pegassem desprevenidos.
Geralmente, as noites eram todas calmas. A floresta se inundava em negro, e apenas os sons dos animais permaneciam na madrugada. O máximo que já acontecera foi a vista de luzes a quilômetros de distância. Lanternas de batedores astrais. Mas naquela noite, algo estranho podia ser sentido no ar.
Tão logo Tarlí se levantou alertado, os arbustos no fim da clareira passaram a se mover fortemente. O lenhador carregou sua arma e mirou no local, esperando. De lá, saiu um grande adulto, de pele rosa – escura; sujo de carvão, gigante como um astral. Seus olhos piscavam um verde estridente no escuro. Os passos abalavam a neve, tamanha a brutalidade do ser.
Tarlí baixou a arma e falou:
– Bohen!?