Poucas pessoas já ouviram falar da pequena cidade interiorana de Crato, no Ceará. Pertinho de Barbalha e Juazeiro Do Norte, foi lá que o professor Plínio Delatorre achou uma boa oportunidade de trabalho. Dando aula na Urca, Universidade Regional Do Cariri, ele poderia fazer seu Doutorado em Fortaleza, sob a orientação do pesquisador Benildo Cavada.
Plínio foi embora de Votuporanga, lá no interior de São Paulo; levando sua esposa e três filhos. Quando chegou no “Cratinho de açúcar”, não tinha sequer móveis na casa que alugara. Mas o tempo passou, e ele cresceu na vida.
Tornare-se Professor Doutor e Pesquisador importante para a instituição e para o CNPq, além de ter sido o único Pró-Reitor de Administração que teve suas contas aprovadas em décadas. Sua esposa foi nomeada cerimonialista na universidade, além de ter aberto seu próprio salão de beleza. Ambos juntaram o dinheiro de seus salários, compraram um terreno e mandaram construir sua primeira casa própria. Tiveram até mesmo um quarto filho naquela cidadezinha.
Mesmo prosperando, nem tudo eram flores na vida do casal. Na verdade, a maior parte do povo da cidade não gostava, tinha ódio ou até mesmo um enorme desprezo por todos os membros daquela família. Pelo fato de serem fora, meros paulistas intrometidos em sua cidade interiorana.
Algumas vezes, a família sofreu por essa pressão. Desde comentários baixinhos que murmuravam “não gosto de gente de fora”, até casos mais sérios, como um professor medíocre da Urca que perdia uma vaga de pesquisa ou uma verba para o professor Plínio, e depois sussurrava “paulistinha de m#rda”. Houve também alguns absurdos envolvendo até mesmo seus filhos. “Esse menino não pode ser o noivo na quadrilha de São João. Ele nem é daqui”.
E não só dos cratenses emanava essa tal xenofobia, que muitos não acreditam que paira no ar brasileiro. Quando Plínio ia ao Laboratório Nacional De Luz (Síncrotron), acompanhado de colegas de Fortaleza, sempre havia aqueles comentários típicos do sudeste. “O que esses nordestinos estão fazendo aqui?”.
Esses problemas nunca foram o suficiente para abalar as estruturas da família Delatorre, apesar da barra ter sido pesada algumas vezes. Mas teve um caso em especial, em que tudo mudou para eles.
Plínio e Daniela, sua esposa; eram membros fervorosos do PCdoB, o Partido Comunista Do Brasil. Estavam sempre presentes nas reuniões regionais. Apoiavam os projetos, e ajudavam no que podiam.
Em reconhecimento ao empenho da família, o partido decidiu indicar Plínio nas próximas eleições como candidato a vereador. Mas ele tinha uma carreira acadêmica da qual não queria se afastar por causa de política. Sua mulher então se tornou a candidata.
“VOTEM DANIELA DELATORRE, JÁ NÃO LEMBRO MAIS O NÚMERO”
Daniela já havia liderado diversos projetos educacionais em comunidades carentes, era bem conhecida pelo povo da cidade por ser um verdadeiro ponto de apoio para aqueles que não tinham muito.
Inúmeros comícios foram feitos pela coligação de Daniela. Inclusive foi em um desses que eu conheci o Cid Gomes, que eu via sempre na televisão. Quase falei para ele, “Você é tão normal, tio. Nem parece que é da TV”, mas era tímido demais para dirigir a palavra a um adulto.
As propostas de Daniela eram fortes, importantes, faziam o povo gritar e aplaudi-la. A mulher tinha uma forte ânsia de mudança, a vontade verdadeira de ajudar a cidade a crescer. Ela era amada pelas crianças dos bairros mais pobres, que corriam atrás de seu carro. De fato, a candidata era carisma puro e responsabilidade política.
Ainda que seus projetos fossem excelentes e sua fama fosse consolidada, vez ou outra alguém gritava a mesma frase nos comícios: “Como pode querer ser nossa vereadora? Você nem é daqui!”. Pois é, essa exclamação do povo se repetia pelo menos umas duas vezes em cada apresentação.
Daniela não ligava para este tipo de comentário, pois era apenas uma minoria. Era impressionante quando ela caminhava no centro; a quantidade de pessoas que vinham lhe cumprimentar, dizendo que votariam nela com toda certeza. Sempre falavam que ela era de longe a melhor candidata!
Toda a família estava feliz por Daniela. Parecia que eles finalmente haviam vencido aquele estigma de paulistanos que uma parte dos cratenses lhe atribuía. Os amigos da família também estavam animados com a mudança de comportamento de seus conterrâneos.
Ia chegando o dia das eleições, e a disputa já parecia ganha. Era de se esperar, também. A campanha de Daniela fora muito bem feita. Já era hora de ela fazer algo a mais para aqueles que precisavam.
O dia da votação chegou. E no final da contagem de votos, algo bem engraçado aconteceu. Daniela teve 36 votos, contando com o dela. “E podia ser diferente? Afinal, ela nem é daqui”. No final das contas, os vencedores da eleição foram os mesmos de sempre. Não vou citar nenhum Almeida Araruna (ops!) aqui.
Basta dizer que como em todas as outras eleições, os candidatos eleitos são “de nome”, daquela tradicional família da região, que recebem votos justamente por serem de nome. Tipos que não têm vergonha de passar numa caminhonete comprando os votos antes da votação. Tipos que a polícia finge que não viu. É um tipo de coronelismo que passa de pai para filho, uma pilantragem sem fim.
Mas, sabe, eu não tenho direito de falar nada. Afinal, eu nem sou de lá.