Huck #1

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João Gabriel

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Talvez você não reconheça Mark Millar pelo nome, mas é bem provável que já tenha se deparado com algumas de suas obras, principalmente as que foram adaptadas ao cinema. Millar é o nome por trás das obras originais de Wanted (O Procurado), Kick-Ass, Kingsman – Serviço Secreto, além de ser o roteirista de arcos famosos nos quadrinhos (principalmente da Marvel) como os Supremos (do universo Ultimate) e a saga Guerra Civil. Em todos estes trabalhos, temos algo em comum: a visão apresentada do super-herói e de seu mundo é a mais cínica possível.

Mas Millar parece estar disposto a acabar com esta fama. Pelo menos é esta impressão que temos ao ler o primeiro número (de um total de seis) da sua nova série, Huck, publicada pela editora Image Comics, atualmente sendo lançada nos EUA. Aqui Millar e Rafael Albuquerque (artista brasileiro famoso internacionalmente pela série “Vampiro Americano”) se propõem a criar uma história de super herói a moda antiga, onde o herói é inegavelmente bom, sem lado sombrio, sem desconstrução do mito do super-herói, sem cinismo. Mark Millar, em entrevista ao portal ComicBook.com, afirmou que a inspiração veio de um rapaz que conheceu enquanto fazia trabalho voluntário em uma entidade para pessoas com dificuldades de aprendizagem. Este rapaz contou ao autor a sua filosofia de vida: “Tento fazer uma boa ação todo dia”. E é esta exatamente a premissa de Huck.

Precisamos falar sobre Kev.. digo, Huck!

Huck difere das obras anteriores de Millar não apenas por sua premissa, mas também pela forma que é conduzida, pelo menos nesta primeira edição. Nada de grandes cenas de ação, violência, explosões e sangue dos quais estamos acostumados em suas obras. Aqui temos uma história (inicialmente) mais contida e até intimista de certa maneira. O protagonista, que dá nome à série, é um feliz habitante de uma pequena cidade do interior dos EUA, que trabalha como frentista de um posto de gasolina, e que em suas horas vagas ajuda os cidadãos locais com todo o tipo de serviços, desde encontrar objetos perdidos, até resgatar pescadores perdidos em alto mar. Ocasionalmente ele também resolve intervir em conflitos de âmbito internacional, situações onde ele só pede uma coisa em troca: o seu total anonimato. Mas o que fazer quando este grande segredo é colocado a prova por interesses mesquinhos?

Boa parte do clima da história é muito bem construído devido à grande qualidade da arte de Rafael Albuquerque. A sequência inicial é magnífica e demonstra muito da personalidade e das capacidades do protagonista, mesmo sem dizer uma palavra sequer. As cores de Dave McCaig também ajudam a dar o tom que a arte necessita. Huck é um personagem de poucas palavras, o que demanda uma atenção maior ainda para a arte, que muitas vezes precisa expressar os sentimentos do personagem através de seu movimento e expressão facial, tarefa esta que Rafael Albuquerque cumpre primorosamente. Não coincidentemente, muitas vezes o rosto do personagem lembra o de outros super-heróis clássicos, como Shazam e Superman, com aquela testa larga e o queixo quadrado, típico das comics norte-americanas.

A belíssima arte de Rafael Albuquerque

A belíssima arte de Rafael Albuquerque

Millar e Albuquerque conseguiram trazer de volta a boa e velha história de super-heróis, ao mesmo tempo que a inclui em nosso contexto contemporâneo. Em um mundo onde as histórias de super-heróis são mais relevantes do que nunca, onde os filmes mais aguardados da temporada são destes seres superpoderosos, que seja na telinha, na telona ou nas páginas das HQs, estão em constante conflito entre si (Batman Vs Superman? Guerra Civil?) e agindo da forma mais brutal possível contra os “caras maus”, quando até o maior expoente destes seres grandiosos é mostrado quebrando o pescoço de seu inimigo, confesso que é refrescante ler uma história como essa e perceber que, apesar do protagonista ser tido como “especial” devido às suas dificuldades, é justamente a sua facilidade que o torna diferente: a facilidade de fazer o bem, apesar de tudo.

Ficha Técnica

Huck Nº1
Lançamento: Nov/2015 (EUA)
Editora: Image Comics
Roteiro: Mark Millar
Arte: Rafael Albuquerque
Cores: Dave McCaig
Páginas:
 30
Preço de capa: US$ 1,99 (no Comixology)

 

 

 

 

 

 

* João Gabriel é estudante de Letras, aluno-pesquisador de iniciação científica sobre Análise do Discurso em HQs, curioso sobre tudo que envolve a industria cultural, e tem o sonho de um dia poder viver apenas como educador, fomentando a leitura crítica de obras da cultura pop em geral (mas por enquanto paga suas contas trabalhando com TI mesmo).
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João Gabriel

João Gabriel é estudante de Letras, pesquisador iniciante sobre Análise do Discurso em HQs, curioso sobre tudo que envolve a industria cultural, e tem o sonho de um dia poder viver apenas como educador, fomentando a leitura crítica de obras da cultura pop em geral (mas por enquanto paga suas contas trabalhando com TI mesmo).
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  • Jaime – o agente bom de corte

    Vou Bom! texto compro ver se !