Juiz Dredd Megazine Especial – Democracia

capa_Democracia
João Gabriel

capa_Democracia

Repressão policial, cidades superpopuladas, estado altamente militarizado, fome, pobreza e miséria… Eu poderia estar falando de qualquer cidade ou país do nosso mundo, mas estas são características do ambiente das histórias de Juiz Dredd. HQ de origem britânica, criada pela dupla John Wagner e Carlos Ezquerra, conta a história de Dredd, que vive em um futuro distópico onde a força policial faz o papel de juiz, juri e executor.

Esta edição especial é uma compilação de várias histórias que foram publicadas durante um período de 5 anos (de 1986 a 1991) na revista britânica original 2000 AD, arco que ficou conhecido como “Democracia”. A história que inicia este arco é intitulada de “Carta de uma democrata” e possui o roteiro pela dupla John Wagner e Alan Grant (que aqui usavam o pseudônimo de T. B. Grover) e arte de John Higgins. Aqui, alguns cidadãos da megalópole Mega-City Um resolvem mostrar seu descontentamento com o regime autoritário dos juízes e criam um “grupo terrorista” (de acordo com o status quo vigente) chamado de Tendência Democrática, que invade um estúdio de telejornal para propagar seus ideais democráticos. Esta história servirá de base para todo o arco, pois apesar de curta, suas consequências repercutem ao longo de toda a obra.

A história seguinte,assinada pela mesma equipe criativa e intitulada de “Revolução”, foi escrita um ano após o prelúdio acima (1987), e dividida em 3 partes. Nela, vemos a gênese de um movimento pacifista pró-democracia, que tem como objetivo a realização de um levante popular para demonstrar ao governo que o povo não aceita mais este regime autoritário. O mais interessante aqui é a forma como os juízes resolvem desmantelar a manifestação, com agentes infiltrados no meio do povo, incitando violência e ataques aos juízes, para que estes possam atacar utilizando-se  de sua força tática, sob o argumento de que eles estão apenas “revidando” o ataque dos manifestantes. Qualquer semelhança com o mundo real NÃO é mera coincidência…

"A democracia não está funcionando...". Não sei como esta obra não é sucesso no Brasil.

“A democracia não está funcionando…”. Não sei como esta obra não é sucesso no Brasil.

A próxima sequência, intitulada de “O mal que você conhece” é de 1991, e retoma o mote da sequência anterior, onde um Juíz Dredd mais “consciente” de seu papel, após retornar de um exílio autoimposto devido a um sentimento de culpa (estas histórias não são contadas nesta revista, mas há uma matéria nela explicando os principais fatos e acontecimentos desta época) resolve organizar um plebiscito para descobrir se a democracia é realmente um desejo dos cidadãos de Mega-City. Esta sequência de histórias é dividida em 4 partes, que desta vez conta apenas com John Wagner no roteiro, e com a arte Jeff Anderson.

Nesta época, John Wagner, que havia terminado sua parceria de anos com Alan Grant, estava se preparando para encabeçar um novo título, uma revista exclusivamente do Juiz Dredd (já que a 2000 AD tinha o formato mais parecido com um “mix”, ou de antologias) e então abriu as portas para que um novo escritor pudesse encerrar este arco de histórias, um jovem escritor irlandês conhecido como… Garth Ennis! Ele então, juntamente com John Burns que assume a arte, escreve a última sequência intitulada “O último brilho do crepúsculo”, onde o plebiscito é finalmente votado, e vemos a consequência de seu resultado. Particularmente, eu não gostei do desfecho dado pelo Garth Ennis, esperava um maior arrojo e coragem para dar um final digno a um arco tão longo de histórias, mas por outro lado, entendo que isso provavelmente se deve ao fato de Ennis estar em início de carreira, além da pressão de ter que terminar uma história no qual ele não esteve envolvido desde o início.

Regime militar autoritário ou democracia? Só nas HQs mesmo para se ter esse tipo de dúvida. Não, pera...

Regime militar autoritário ou democracia? Só nas HQs mesmo para se ter esse tipo de dúvida. Não, pera…

A obra, por não ter um formato de luxo ou algo que o valha, saiu apenas em bancas no final do ano passado (2014). Caso tenha interesse, pode procurá-la em sebos ou fazer um pedido direto do site da Mythos Editora. Para quem quer começar a ler as histórias do Juiz Dredd, este é um prato cheio. Você consegue ter uma boa noção do histórico do personagem, até porque, como já dito, é uma obra que acompanha um grande intervalo de tempo na vida do personagem. Mas o elemento de maior importância desta obra é sem dúvida o seu valor político-social. Em época de manifestações constantes e um reavivamento da mentalidade política dos brasileiros (para o bem, ou para o mal), esta é uma obra de grande valia e extremamente pertinente para mantermos viva a discussão: até onde um cidadão está disposto a abrir mão da sua liberdade em prol de um governo que (supostamente) lhe forneça segurança? Pensando bem, depois de ver cartazes de pessoas nas ruas pedindo a volta do regime militar no Brasil, o desfecho dessa história não me parece mais tão absurdo assim…

Ficha Técnica

Juiz Dredd Megazine Especial – Democracia
Lançamento:
EUA (1986/1991), Brasil (2014)
Editora: Mythos
Roteiro: John Wagner, Alan Grant / Garth Ennis
Arte: John Higgins / Jeff Anderson / John Burns
Acabamento:
 Brochura
Miolo: 
84 páginas (colorido e preto-e-branco)
Formato: 20,5 x 27,5 cm
Preço sugerido: R$16,40

João Gabriel

João Gabriel é estudante de Letras, pesquisador iniciante sobre Análise do Discurso em HQs, curioso sobre tudo que envolve a industria cultural, e tem o sonho de um dia poder viver apenas como educador, fomentando a leitura crítica de obras da cultura pop em geral (mas por enquanto paga suas contas trabalhando com TI mesmo).
Previous post Director Jonás Cuarón has some of his father Alfonso’s knack for physical tension
  • The Nada

    uma das poucas coisas que moore já escreveu que eu nunca li 🙁

    • Joao Gabriel de Oliveira

      O que? 2000 AD?

  • FrankCastiglione

    Ótima resenha! Quero ler essa! Justiceiro, Juiz Dredd, Capitão Nascimento etc são personagens muito bons. Mas muita gente confunde as coisas: não é porque você gosta deste material na ficção que automaticamente concorda com essas posições no mundo real, como o estado de polícia. A própria HQ do Juiz Dredd é uma sátira, uma crítica ao fascismo.

    Tem uma história que tem uma passagem bem interessante, um monte de gente pega um cara de macacão onde está escrito “TECLADISTA” e o enforcam, pensando se tratar de um … TERRORISTA.