Os Invisíveis: Discurso, gênero e subversão

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João Gabriel

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Bem, dessa vez vou fazer diferente aqui. Ao invés de escrever uma análise sobre uma edição específica, quero tentar me aprofundar em alguns conceitos de uma obra pelo qual tenho muito apreço: Os Invisíveis, de Grant Morrison.

Os Invisíveis (saiu pelo selo Vertigo, de 1994 a 2000) é uma obra extremamente difícil de se analisar, pois podemos partir de várias perspectivas, e ao fazer uma análise muito abrangente, sempre corremos o risco de deixar algo passar despercebido. Então, deixarei claro a minha intenção: verificar como a construção do discurso e as concepções de gênero e sexualidade são utilizados em prol da subversão, tanto da sociedade representada dentro da HQ, quanto na sociedade em que se insere, ou seja, em nossa própria sociedade. Mas primeiro, creio ser necessário uma apresentação da obra em si.

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Da esquerda pra direita: Dane, King Mob, Ragged Robin e Lord Fanny.

A HQ conta a história de integrantes de uma célula de  um  grupo maior, que pode ser descrito como uma  sociedade  secreta anarco-terrorista, conhecidos  coletivamente como  Os Invisíveis. A narrativa começa  com o recrutamento de  Dane Mcgowan, um jovem de  Liverpool, com fortes  tendências anarquistas. Após uma  espécie de iniciação, ele  é apresentado aos seus 4 colegas  (cada célula Invisível deve  contar sempre com 5  integrantes). Estes colegas são: King  Mob, (inicialmente)  líder do grupo, é uma representação  semi-biográfica do  autor (segundo o próprio Grant  Morrison); Boy, uma ex-  policial de NY; Ragged Robin, uma  garota de maquiagem  extravagante, que possui poderes  telepáticos e se  apresenta como “maluca”; e Lord Fanny,  uma travesti  brasileira descendente de uma linhagem de  feitceiras  xamãs mexicanas.

E qual o motivo de um grupo tão peculiar existir? Bem, aparentemente a sociedade humana está sofrendo a séculos de uma conspiração realizada por seres extra-dimensionais que desejam controlar os rumos da civilização, mantendo os seres humanos como escravos mediante opressão física e mental (embora muitas vezes, de forma sutil). A grande sacada do Morrison é como ele utiliza todas essas suas típicas “pirações” para fazer uma analogia sobre temas correspondentes ao mundo real (característica necessária aos bons escritores de ficção científica e fantasia). Se observarmos atentamente a narrativa, perceberemos grandes críticas ao nosso modo de vida moderno e contemporâneo. Nada foge de sua mira: a tecnologia, a propaganda, o consumo, as instituições, grandes corporações e a própria cidade. Tudo isso, que atravanca a capacidade infinita de evolução humana e nos torna escravos dóceis em nome do “progresso”, não seria por acaso, mas sim um plano de entidades sórdidas, os Arcontes.

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O discurso “PTralha” do maluco beleza, Tom O’Bedlam. Esse cara aí deve ser comunista…

O que eu gostaria de enfatizar aqui é a forma como estes Arcontes realizam este controle. Mais do que qualquer poder mágico, o discurso tem um papel de extrema importância. É por ele que a opressão toma forma, padronizando, uniformizando e categorizando tudo e a todos. E o mesmo discurso que valida o que os Arcontes querem que seja visto como “verdadeiro”, “real” ou “aceitável” pela sociedade, é também aquele que exclui e segrega. E isso se torna perceptível quando percebemos que todos os personagens Invisíveis são, de alguma forma, páreas perante a sociedade. Seja por serem considerados fora do padrão da lucidez (como a Ragged Robin ou o Tom O’Bedlam, um velho sem-teto que se torna mentor de Dane), seja devido a outras não conformidades com as regras vigentes, como sexualidades não heteronormativas (característica mais visível na personagem Lord Fanny e no Marquês de Sade, que faz uma participação bem importante logo no primeiro volume). E neste quesito, Os Invisíveis se mostra um prato cheio.

Embora Lord Fanny seja a personagem onde este tipo de abordagem é mais óbvia, se analisarmos mais um pouco, veremos que a sexualidade e gênero como forma de confronto contra o controle e subversão do status quo é utilizado por diversos outros personagens. O próprio King Mob não é o maior exemplo de “masculinidade”, tendo sua bissexualidade implícita durante toda a narrativa. Mas quero dar destaque principalmente às personagens femininas da trama. Boy, que é apresentada com sua identidade de gênero e orientação sexual correspondente aos padrões esperados pela biologia de seu corpo e aceitos pela heteronormatividade, ou seja, ela se vê e é vista socialmente como mulher, tem seu próprio codinome não corresponde a esta expectativa. Neste caso, a discussão fica apenas no aspecto semântico, embora já se apresente como uma forma subversiva. Ragged Robin, embora também não apresente (pelo menos inicialmente) traços que conotem uma sexualidade não-padrão (lembrando, usando como padrão o aceitável pela sociedade), ela incorpora em sua indumentária características de performances tipicamente drag gueen, como a maquiagem “pesada”, cabelo e roupas extravagantes. E o que seria o nosso gênero, senão meramente uma performance à qual somos ensinados a seguir, a partir de um reforço cultural/midiático constante? Não somos ensinados desde crianças que determinados objetos, roupas, produtos do entretenimento, entre outros, são “de menino” ou “de menina”?

Lord Fanny sendo diva...

Lord Fanny sendo sexy, sem ser vulgar…

Mas uma análise sobre discurso de gênero e sexualidade dentro de Os Invisíveis não  ficaria completa sem a presença de seu maior expoente: Lord Fanny! Inicialmente  Hilde Morales, Lord Fanny nasce nas favelas do Rio de Janeiro, com genitálias  masculinas, ou seja, é designado como menino ao nascer. Porém, sua avó, uma grande  bruja mexicana, se mostra preocupada com a continuação de sua linhagem de  feiticeiras, pois seus segredos só podem ser passados às mulheres da família. Então,  com a incapacidade de sua mãe em gerar filhas, Hilde é “transformada” em menina,  sendo criada assim por sua avó depois da morte de sua mãe. Interessante ver como  Morrison brinca com o conceito da construção de gênero aqui, ainda mais levando-se  em consideração a época em que a revista foi concebida. Em conforme com as mais  recentes teorias do campo de gênero e sexualidade, como a teoria queer, Morrison  demonstra a partir dessa personagem, o que ele deixa apenas subentendido nas  outras: que sexo e gênero são meras construções sociais.

E embora ele mesmo posteriormente na série questione (de maneira bem embasada) o quanto que uma travesti subverte ou apenas reitera a questão de gênero (ao reproduzir e reforçar o estereótipo feminino), a discussão que ele abre, a partir de um mero produto da indústria cultural, tem grande importância principalmente ao possibilitar que estes discursos de “resistência” encontrem alguma forma de adentrar em nossos padrões da sociedade e, se não derrubá-los por si só, pelo menos escancará-los para o maior número de pessoas possíveis, desnaturalizando o que é considerado imutável, e servindo de trampolim para que tenhamos cada vez um mundo mais livre da homofobia, lesbofobia, transfobia e do preconceito em si. Ponto pro careca!

"O exército invisível é coisa pra macho, vai encarar?"

Desconstruindo gêneros e preconceitos

 

 

* João Gabriel é estudante de Letras, aluno-pesquisador de iniciação científica sobre Análise do Discurso em HQs, curioso sobre tudo que envolve a industria cultural, e tem o sonho de um dia poder viver apenas como educador, fomentando a leitura crítica de obras da cultura pop em geral (mas por enquanto paga suas contas trabalhando com TI mesmo).
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João Gabriel

João Gabriel é estudante de Letras, pesquisador iniciante sobre Análise do Discurso em HQs, curioso sobre tudo que envolve a industria cultural, e tem o sonho de um dia poder viver apenas como educador, fomentando a leitura crítica de obras da cultura pop em geral (mas por enquanto paga suas contas trabalhando com TI mesmo).
  • Pedro

    Ótimo texto menino João Gabriel, irei atrás da HQ para ler.

    • Joao Gabriel de Oliveira

      Opa, valeu aí Pedro. Em sites online como a Comix ou LigaHQ ainda tem alguns (inclusive na Comix ainda tem o primeiro volume da Panini). Vale a pena mesmo! Fora o que eu comentei, ainda tem vários outros temas que são abordados pela revista, fora as referências a filosofia e cultura pop…

  • Natali Lee

    Não conhecia, mas gostei da apresentação.
    Me interessei pela personalidade e origem dos personagens. Assim que tiver uma opinião formada sobre o HQ volto e deixo minha opinião.

    • Joao Gabriel de Oliveira

      Isso aí Natali! Valeu… o/