Superman – Terra Um

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João Gabriel

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Um dos meus primeiros posts aqui no PLN foi sobre “Fim dos Tempos“, a maxissérie da DC que preparou o terreno para Convergence, que por sua vez abalará toda a cronologia da DC. E é justamente esta palavra que afasta um grande número de possíveis leitores das HQs: cronologia. Em um dos comentários sobre meu texto, um leitor reclamou de não ter entendido nada e sugeriu que eu escrevesse algo dando dicas de como iniciar a leitura de quadrinhos de super-heróis. Por onde começar? Eu prometi que faria, mas ao me deparar com tal tarefa, comecei a achar algo bem difícil. Bem, a minha recomendação de hoje é uma tentativa de de saldar esta dívida.

Superman – Terra Um é o primeiro de uma série de histórias (re)contando a origem de alguns heróis da DC, só que em um mundo “paralelo”. Aí você me diz: “Ei, você falou que é uma recomendação e já está falando de mundos paralelos?”. Sim! Pois, apesar disso, você não precisa ter nenhum conhecimento prévio da cronologia para entender e curtir esta história. E ao contrário do que aconteceu com os Novos 52 (que possui uma premissa parecida), esta é uma série onde a maioria das histórias são autocontidas. Isto acontece pois não é uma série mensal (nem nos EUA), e o número de publicações (ainda) se encontra bem baixo, ou seja, o volume de informação é muito menor. Aliás, as publicações das edições “Terra Um” foram pensadas justamente para serem uma porta de entrada para novos leitores, realizando uma reformulação em vários heróis, ideia esta que acabou sendo reutilizada posteriormente no já citado Novos 52, mas de maneira mais massiva, pois foi realizado nos títulos da linha principal da editora (o que explica o Superman ainda usar a cueca por cima das calças nesta publicação).

O título se aproveita do fato de que, embora ele esteja remodelando um personagem, este personagem é o Superman, ou seja, mesmo que você nunca tenha lido ou assistido nada dele (onde você esteve todos estes anos, Kripton?), seu conceito está presente no inconsciente coletivo de nossa sociedade, pois Superman não é apenas um personagem de HQs, mas um mito. Mesmo assim, para quem já está acostumado a ler o personagem, temos algumas mudanças que o distinguem de suas abordagens usuais por outros autores. Primeiramente, esta história tem um ar muito mais intimista que o usual. Ela trata sobre rejeição, aceitação, busca por autoconhecimento e nos faz refletir nosso lugar na sociedade. Confesso que estou acostumado em ver esta temática em obras como Homem-Aranha e X-Men, mas não em histórias do Azulão…

Ainda não tão super assim...

Ainda não tão super assim…

O que nos leva aos pontos positivos da história. O início da obra é muito bom, com um Clark Kent tendo que enfrentar todas estas indagações já citadas, procurando o seu lugar em um mundo no qual ele não pertence, e um objetivo de vida a seguir. E este tipo de história cria um laço imediato com a maioria de nós. Afinal, em algum momento de nossas vidas já nos sentimos assim, não? Seja pela mudança de escola, um bairro novo, cidade, ou simplesmente pelo decorrer do tempo (adolescência, início da vida adulta), estes questionamentos sempre estão conosco, e pensando de maneira mais abrangente, sempre fizeram parte do pensamentos das civilizações de modo geral. E aí está justamente a força de um mito, em trabalhar conceitos que já estão em nosso inconsciente e exteriorizá-los.

J. Michael Straczynski (Rising Stars, Homem-Aranha) concede um roteiro inicialmente instigante e em parceria com Shane Davis (Superman/Batman) conseguem criar uma narrativa totalmente cinematográfica, sensação criada pelo estilo do traço de Davis, juntamente com a escolha e disposição dos quadros nas páginas. Destaque também para as cores de Barbara Ciardo, que dão profundidade e vivacidade a história que está sendo contada, ao mesmo tempo que eleva em muito o nível do traço original. Infelizmente, nada disso consegue salvar esta edição de dois problemas gravíssimos, pelo menos ao olhar deste humilde redator. Superman já é conhecido por ter uma das PIORES galerias de vilões, então os autores escolhem (sabiamente, diga-se de passagem) criar um vilão totalmente novo. Então eles criam Tyrell, o vilão mais ERRADO que poderia existir. Desde a escolha do nome (um alienígina chamado “Tyrell”? Sério?), passando pelo conceito, visual e motivações, NADA neste ser parece funcionar! O que nos leva ao segundo problema, o final da história. Para mim, a leitura é extremamente agradável até a narrativa começar a se encaminhar para o fim, e os “roteirismos” e “deus ex machina” começarem a aparecer indiscriminadamente.

Ei Tyrell, fale a verdade, você é um personagem da década de 90 né?

Não vejo um personagem com um design tão ruim desde… a década de 90!!!

Apesar disso, considero sim Superman – Terra Um uma ótima leitura, principalmente para quem quer começar a se aventurar no super-heróico mundo das HQs. As capacidades do personagens são bem exploradas, e o fato de não haver uma Liga da Justiça (e a presença de um Batman) faz com que o personagem não precise ser emburrecido para demonstrar a sagacidade do Cavaleiro das Trevas. Aliás, a cena do Super usando suas habilidades para a pesquisa científica demonstra o que ele é super em todos os quesitos humanos, não apenas em força. Para mim, a influência desta história no roteiro do filme do “Homem de Aço” é inegável, principalmente no relacionamento com seus familiares terrestres (tanto com sua mãe, quanto com seu pai, que aqui também está morto e aparece em flashbacks). Até a destruição da cidade em uma pancadaria final é parecida! Outro ponto forte é a edição da Panini, que apesar de ser uma história não muito extensa, optou por fazer uma edição de capa dura e acabamento impecável, e preço acessível (embora não seja tão fácil de achar atualmente). Então, tá esperando o que para começar a ler quadrinhos? Agora não tem mais desculpa…

Ficha Técnica

Superman – Terra Um
Lançamento:
EUA (Out/2010), Brasil (Jan/2013)
Editora: Panini Books
Roteiro: J. Michael Straczynski
Arte: Shane Davis
Acabamento:
 Capa dura, lombada quadrada
Miolo: 
140 páginas coloridas em papel couchê
Formato: 17 x 26 cm
Preço sugerido: R$22,90

João Gabriel

João Gabriel é estudante de Letras, pesquisador iniciante sobre Análise do Discurso em HQs, curioso sobre tudo que envolve a industria cultural, e tem o sonho de um dia poder viver apenas como educador, fomentando a leitura crítica de obras da cultura pop em geral (mas por enquanto paga suas contas trabalhando com TI mesmo).