Resenha: Graça Infinita

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17601009David Foster Wallace escreveu uma colossal obra-prima. Não bastassem suas 1.100 páginas, Graça Infinita é grande não somente por ser um senhor tijolo, mas pela quantidade de temas abordados, personagens apresentados, trabalhados, esmiuçados em complexas tramas, subtramas, enigmas e curiosidades que recheiam cada folheada, num profundo exercício sobre o entretenimento, a solidão, os vícios e o cinismo dos nossos tempos.

Na trama, os Estados Unidos e o Canadá já não existem: eles foram substituídos pela poderosa ONAN, a Organização de Nações Norte-Americanas. Uma enorme porção do continente se tornou um depósito de lixo tóxico. Separatistas quebequenses praticam atos terroristas e a contagem dos anos foi vendida às grandes corporações.

Os protagonistas são os irmãos Incandenza – membros da família mais disfuncional da literatura contemporânea -, conforme tentam dar conta do legado do patriarca James Incandenza, um cientista de óptica que se tornou cineasta e cometeu suicídio depois de produzir um misterioso filme que, pela alta voltagem de entretenimento, levava seus espectadores à morte. Enquanto organizações governamentais e terroristas querem usar o filme como arma de guerra, os Incandenza vão se embrenhar numa cômica e filosófica busca pelo sentido da vida.

Toda essa nossa busca por tamanha enxurrada de filmes, músicas, games, enfim, produtos que nos deixam num estado de letargia perante o todo mais parece uma prática sacra. Graça Infinita questiona a nossa tão comum ironia, nosso sarcasmo e o cinismo generalizado que nos deixa encarar tudo na lógica das práticas repetitivas, do individualismo total, abandonando qualquer senso de comunidade e solidariedade, num vazio de significado que abarca qualquer ser humano, indiferente de seus atributos mais singulares. As totalidades que criamos mais parecem querer esconder as impossibilidades do nosso dia a dia.

Graça Infinita é um marco para quem lê. Demarca uma transição assustadora, que te levará a hipnóticos níveis de concepção de mundo, sem nunca esquecer de te arrastar continuamente por mais um capítulo, lhe cravando a curiosidade pelas extensas notas posteriores; as pistas que farão visualizar um grande quebra-cabeça, sublinhado as linhas e criando memórias. Um cronograma pode ajudar a fazer com que você decole, removendo a hesitação ao encarar o “livrinho” pela primeira vez. Não se arrependerá, garanto.

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Rodrigo Barros

Sociólogo e às vezes filósofo de esquina; louco por teoria, livros e psicanálise. Escreve sobre política, sociedade, literatura e outras coisitas mais (ou não).
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