Definitivamente, escrever uma história do Superman não deve ser fácil. Embora seja o símbolo máximo do super-herói dos quadrinhos, e um dos personagens mais antigos ainda na “ativa”, ainda assim é um personagem que é pouco explorado, e sem tantas histórias memoráveis como outros mais novos.
Talvez por isso a abordagem usada por Brian Azzarello (Superman – Pelo Amanhã, Mulher Maravilha [Novos 52]) de contar uma história do último filho de Krypton pelos olhos de seu maior nêmesis: Lex Luthor. E esta é a premissa de Lex Luthor: Homem de Aço, onde podemos acompanhar um Lex disposto a tudo para demonstrar o potencial da capacidade humana, através da construção de sua Torre da Ciência.
Originalmente uma minissérie em 5 partes, foi lançada aqui no Brasil originalmente na revista mensal do Superman em 2006 (dos números 44 ao 48) e posteriormente lançada em forma de encadernado. A história começa demonstrando um Lex Luthor humano em todos os sentidos, enfatizando sua humanidade através da sua relação com um de seus empregados, mostrando como Lex se preocupa com ele e sua família. Porém, em uma cena seguinte, vemos um mercenário sem escrúpulos realizando uma missão a mando do magnata. Ou seja, o maniqueísmo passa longe e podemos perceber o Azzarello brincando com nossas noções de bem e mal, e do conceito que já tínhamos de Luthor.

Muito antes de Batman V Superman, Bruce Wayne e Lex Luthor já tratavam de negócios em conjunto…
E a partir daí toda a trama se desenvolve, com as ações de Lex para demonstrar a superioridade da raça humana perante ao alienígena que é Superman. Mas o interessante é que o Azzarello escreve um Luthor que não parece simplesmente um novo Hitler. É como se ele (Lex) tivesse superado as diferenças raciais e étnicas que separam a humanidade, desenvolvendo um pensamento que não diferencia os seres humanos entre si, ao passo que transfere todo o seu preconceito para o ser “estrangeiro” de outro planeta, realmente como uma xenofobia. Ao mesmo tempo que vemos um Lex idealista, humanista e filantropo, também o vemos como um CEO inescrupuloso, disposto a ameaçar quem quer que esteja entre ele e seus objetivos.
Mas Brian Azzarello não faz isso tudo sozinho. Aliás, ouso dizer que, se não fosse pela arte, metade do recado ficaria perdido. Lee Bermejo (Coringa, Batman: Noel), através de um traço “sujo”, com rostos semi-fotorrealistas, demonstra para o leitor a visão de Lex sobre o mundo, e principalmente, sua visão sobre o Homem de Aço. Toda vez que Superman aparece, ele está com um tom ameaçador, olhos vermelhos e expressão raivosa, como um monstro prestes a destruir tudo a sua volta. A arte é que dá o contraste da humanidade de Lex e da “não humanidade” do Super, Interessante notar que, em dado momento, podemos visualizar Clark Kent apenas como um repórter, e neste momento pode-se perceber sua fisionomia “normal”, pois Lex não o vê (tão) ameaçador quanto o Homem de Aço.

O ameaçador Homem de Aço nos traços de Lee Bermejo.
O maior problema desta HQ, pelo menos para mim, é algo que já ocorreu anteriormente, durante o “run” de Azzarello na revista mensal de Superman (que deu origem ao arco “Pelo Amanhã”, junto com Jim Lee). O final, tanto de Pelo Amanhã quanto de Lex Luthor: Homem de Aço, é um pouco decepcionante, anticlimático até. No caso de Pelo Amanhã, é ainda pior. Lex Luthor: Homem de Aço ainda consegue se sair bem, devido ao seu roteiro simples, mas consistente, e sua arte que, embora não agrade a todos, cumpre (muito) bem o seu papel na narrativa.
Interessante notar também que, em tempos de Batman V Superman, nesta HQ já temos um encontro entre Bruce Wayne e Lex Luthor, tratando de negócios e assuntos em comum. formando uma frágil, porém perigosa aliança. E então, já conhecia esta HQ? Ficou curioso?
Ficha Técnica
Lex Luthor: Homem de Aço
Lançamento: 2005 (EUA), 2011 (Brasil, encadernado)
Editora: Panini Comics
Roteiro: Brian Azzarello
Arte: Lee Bermejo
Cores: Dave Stewart
Acabamento: Lombada quadrada, Capa Cartão
Miolo: Formato 17 x 26 cm, papel LWC, 132 páginas (colorido)
Preço de capa: R$ 12,90 (esgotado, mas pode ser encontrado em sebos e no Mercado Livre)
* João Gabriel é estudante de Letras, aluno-pesquisador de iniciação científica sobre Análise do Discurso em HQs, curioso sobre tudo que envolve a industria cultural, e tem o sonho de um dia poder viver apenas como educador, fomentando a leitura crítica de obras da cultura pop em geral (mas por enquanto paga suas contas trabalhando com TI mesmo).
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